A política de preços da Petrobras (PETR4) volta ao centro do debate e eleva a tensão no mercado de combustíveis, agora com risco de paralisação no transporte rodoviário. Relatório do BTG Pactual aponta que a defasagem no diesel, somada aos reajustes recentes, aperta as margens dos caminhoneiros e reacende o temor de uma nova greve no setor.
O estudo indica distorções mais amplas na cadeia de abastecimento, com impactos na oferta, na formação de preços e na disputa por clientes entre as distribuidoras. Esse descompasso cria incertezas e aumenta a volatilidade, especialmente em um momento de maior sensibilidade para custos logísticos.
Como funciona a dinâmica de abastecimento do diesel no Brasil?
Segundo o BTG, cerca de 40% do suprimento nacional de diesel depende do exterior — aproximadamente 30% via importações diretas e 10% por meio de refinarias privadas. A Petrobras, contudo, vem praticando preços com desconto relevante ante a paridade internacional, o que influencia a competitividade no atacado e altera incentivos de importação.
A estatal estaria vendendo o produto com cerca de 33% abaixo da paridade de importação, o que reduz o ímpeto de compra no mercado externo e concentra a oferta nos canais ligados à companhia. Essa política, embora alivie parcialmente o consumidor no curto prazo, pode gerar gargalos e disputas por volumes em momentos de estresse.
Apesar do abatimento frente ao mercado internacional, os preços domésticos seguem em alta. O diesel acumula avanço de cerca de 19% no mês, refletindo repasses e ajustes recentes. Para os caminhoneiros, o efeito é imediato: pressão na rentabilidade e maior risco operacional, com paralelos à crise de 2018, quando o governo precisou intervir com subsídios.
As grandes distribuidoras listadas tendem a capturar oportunidades. Com acesso a 80% a 90% dos volumes fornecidos pela Petrobras, essas empresas conseguem diluir custos de importação, sustentar oferta e disputar participação de mercado. A reconfiguração competitiva pode favorecer ganhos de market share e expansão de margens, ainda que exija mais capital de giro e convívio com incertezas prolongadas.
No balanço, a política de preços preserva competitividade no curto prazo, mas amplia riscos de oferta, pressiona o transporte rodoviário e redistribui forças entre os agentes, em um ambiente sensível a choques externos e decisões corporativas.