
As ações da bolsa americana desabaram nesta quinta-feira (3), registrando o pior desempenho desde o início da pandemia de Covid-19. O movimento ocorreu após o presidente Donald Trump anunciar a implementação de tarifas abrangentes contra quase todos os parceiros comerciais dos Estados Unidos.
O índice Dow Jones Industrial Average caiu 4%, o que representa uma perda de quase 1.700 pontos. Já o S&P 500 recuou 4,8%, enquanto o Nasdaq Composite, com forte presença de empresas de tecnologia, despencou 6%. Todos os três índices encerraram o pregão próximos das mínimas do dia. Para o Dow e o S&P 500, foi a maior queda diária desde junho de 2020; no caso do Nasdaq, o pior desempenho desde março daquele ano.
Na sessão anterior, os mercados haviam fechado em alta — com o S&P 500 acumulando três dias consecutivos de ganhos. No entanto, o humor virou nas negociações após o expediente, quando Trump anunciou seu plano tarifário.
Os Estados Unidos vão impor uma tarifa recíproca mínima de 10% sobre quase todos os países. Além disso, foram anunciadas tarifas específicas para 60 nações, equivalentes à metade das taxas que, segundo o governo, esses países aplicam sobre produtos americanos por meio de tarifas, barreiras não tarifárias e outras práticas consideradas desleais. As novas medidas afetarão todos os principais parceiros comerciais dos EUA, incluindo a União Europeia, Japão e China.
Antes mesmo da oficialização das tarifas, o mercado já vinha enfrentando forte volatilidade. O S&P 500 e o Nasdaq haviam registrado, em março, suas maiores perdas mensais desde 2022, refletindo os temores de que a nova rodada de medidas comerciais possa reacender a inflação, frear o crescimento econômico e afetar empresas com operações globais.
“O anúncio foi pior do que a maioria dos investidores esperava”, afirmou Daniel Morris, estrategista-chefe de mercado da BNP Paribas Asset Management, em nota publicada nesta quinta-feira. “Agora, a grande questão é se haverá espaço para negociação dessas tarifas recíprocas.”
O rendimento do título do Tesouro americano de 10 anos — que já vinha caindo nos últimos dias diante do aumento das preocupações com a economia — recuou de 4,20% no fechamento anterior para 4,04%, e chegou a atingir 4,00% nesta manhã, seu menor nível desde outubro. Essa taxa influencia diretamente os custos de empréstimos, inclusive hipotecas.
Setores mais afetados
Entre os destaques negativos do dia estiveram ações de empresas varejistas que dependem fortemente de importações. A Nike (NKE) caiu 14%, enquanto a Best Buy (BBY) perdeu 18%. A Target (TGT) recuou 11%, a Dollar Tree (DLTR) caiu 13%, e empresas como Williams-Sonoma (WSM), Ralph Lauren (RL) e Deckers Outdoor (DECK), dona das marcas UGG e Hoka, cederam cerca de 15%.
A Apple (AAPL), com forte presença fabril na China, Vietnã e Índia, foi a maior queda entre as big techs, recuando mais de 9%. Fabricantes de chips como Nvidia (NVDA) e Broadcom (AVGO) caíram cerca de 8% e 11%, respectivamente. Já Amazon (AMZN) e Meta Platforms (META) tiveram quedas de 9% cada, enquanto Tesla (TSLA) caiu mais de 5%. Microsoft (MSFT) e Alphabet (GOOG) também registraram perdas significativas.
Outros nomes importantes do setor de tecnologia também foram fortemente impactados: Dell Technologies (DELL) desabou 19%, e HP Inc. (HPQ) caiu 15%. Fabricantes de componentes como Micron (MU) e Microchip Technology (MCHP) recuaram mais de 16%.
As ações do setor financeiro também sofreram com os temores de recessão. Bank of America (BAC) e Citigroup (C) caíram mais de 11%, American Express (AXP) recuou 10%, e os bancos de investimento Goldman Sachs (GS) e Morgan Stanley (MS) perderam mais de 9% cada.
Bitcoin e commodities em queda
O Bitcoin era negociado em torno de US$ 82.400 no fim da tarde desta quinta-feira, abaixo dos aproximadamente US$ 88.000 registrados antes do pronunciamento de Trump. O movimento refletiu a fuga de investidores de ativos de risco. A queda da criptomoeda também afetou empresas do setor, como MicroStrategy (MSTR) e Coinbase (COIN), que recuaram de forma expressiva.
Os contratos futuros de ouro, que vinham renovando recordes nos últimos dias, caíram 0,9%, fechando a US$ 3.140 por onça. Já os futuros do petróleo tipo West Texas Intermediate, referência do mercado americano, recuaram 7,1%, para US$ 66,60 o barril, pressionados pelos riscos de uma guerra comercial global e pelo aumento da oferta anunciado por países produtores.
Impacto em tecnologia e varejo
Empresas com cadeias de suprimentos internacionais voltadas à produção de hardware foram especialmente impactadas. As ações da Dell Technologies (DELL) lideraram as perdas do S&P 500, caindo 19%. HP (HPQ) também recuou 15%. A Western Digital (WDC), fabricante de discos rígidos e soluções de armazenamento, despencou 18%.
A Best Buy (BBY) teve uma queda de 18%, após o Citi rebaixar sua recomendação de “compra” para “neutra”, apontando riscos nas vendas em mesmas lojas devido à resistência dos consumidores aos aumentos de preços. Segundo os analistas, as tarifas existentes sobre produtos importados da China podem reduzir as vendas da empresa em até 5 pontos percentuais, o que traria riscos relevantes para as projeções da companhia.
Poucos destaques positivos
Apesar do tom negativo do mercado, algumas ações conseguiram se destacar. A Lamb Weston Holdings (LW), fornecedora de batatas fritas congeladas e outros produtos à base de batata, subiu 10%, liderando os ganhos do S&P 500. A empresa reportou resultados acima do esperado no terceiro trimestre fiscal, com destaque para ganhos de eficiência operacional. O fundo ativista Jana Partners, que adquiriu participação relevante na companhia no final de 2024, tem pressionado por mudanças estratégicas.
Papéis com perfil mais defensivo, principalmente no setor de saúde, também avançaram. As seguradoras Molina Healthcare (MOH), Centene (CNC) e Elevance Health (ELV) subiram 7,5%, 5,9% e 5,4%, respectivamente.
A busca por empresas mais resilientes em tempos de crise também impulsionou a varejista de descontos Dollar General (DG), que avançou 4,7%. A expectativa é que a companhia se beneficie de um cenário de deterioração do consumo, ao atrair clientes preocupados com o orçamento.