Os juros elevados no Brasil não se explicam apenas pelas decisões do Banco Central. Para a economista Ana Paula Vescovi, a Selic também traduz o desequilíbrio fiscal, a alta da dívida pública e a falta de coordenação entre as políticas fiscal e monetária. A avaliação foi apresentada durante o Suno Invest 2026.
Segundo Vescovi, o mercado exige um prêmio maior para financiar o governo quando identifica que as despesas públicas crescem sem instrumentos suficientes para estabilizar a dívida. Esse risco se manifesta nas taxas de curto e longo prazo, encarecendo o custo do dinheiro.
Por essa ótica, a trajetória das taxas reflete não só a condução da política monetária, mas também a percepção de solvência do setor público. A ausência de um arcabouço fiscal crível tende a elevar a incerteza e a pressionar os prêmios de risco.
Por que os juros permanecem elevados
A economista afirmou que o Brasil combina dívida pública em trajetória crescente, juros internacionais ainda altos e um prêmio de risco elevado. Esse conjunto limita a capacidade de reduzir a Selic de forma consistente.
Vescovi citou dados de execução fiscal segundo os quais a receita estaria crescendo pouco mais de 5% acima da inflação, enquanto as despesas avançariam cerca de 10% em termos reais. Na avaliação dela, essa diferença mantém a política fiscal expansionista e reduz a potência da política monetária.
“Juros altos são a grande manifestação da falta de arbitragem de conflitos distributivos que a gente tem no Brasil”, afirmou. Sem o alinhamento entre Tesouro e Banco Central, os sinais de política econômica chegam ao mercado com ruído e menor eficácia.
Na prática, quando o governo amplia gastos enquanto o Banco Central tenta conter a demanda, as decisões de política monetária perdem força. O mercado passa a exigir taxas maiores para compensar a incerteza, o que pressiona o crédito para empresas e famílias.
Ajuste fiscal com produtividade e equidade
Para Vescovi, o país precisa iniciar um ajuste fiscal com rapidez e combiná-lo a medidas de aumento de produtividade. Ela defendeu a revisão de despesas previdenciárias e destacou que mais de dois terços dos benefícios do sistema estão vinculados ao salário mínimo ou abaixo dele.
A economista mencionou como exemplo a interrupção de novos ganhos reais do salário mínimo enquanto a produtividade não acompanhar esse avanço. Segundo a estimativa apresentada no evento, a medida teria impacto inicial de aproximadamente 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB), mas poderia representar 1% do PIB em dez anos.
Ela ressaltou que o ajuste precisa ser percebido como justo. Na visão da economista, cortes concentrados na população de menor renda tendem a perder legitimidade quando permanecem privilégios e despesas pouco transparentes no setor público.
Uma consolidação fiscal crível reduz incertezas, alinha expectativas e melhora a transmissão da política monetária. Com isso, o prêmio de risco tende a cair, abrindo espaço para custos de financiamento menores no tempo.
Impactos dos juros para investidores e famílias
A permanência de juros elevados aumenta o custo de financiamento, reduz o espaço para investimentos produtivos e pode afetar os resultados de empresas mais endividadas. Para as famílias, significa crédito mais caro e maior dificuldade para renegociar dívidas.
Ao mesmo tempo, a renda fixa segue beneficiada por taxas elevadas, embora seja necessário considerar o risco de crédito e a possibilidade de mudanças futuras na Selic. Uma eventual melhora dependeria de maior credibilidade fiscal, avanço da produtividade e coordenação entre Tesouro e Banco Central.
“A forma educada é a gente fazer o dever de casa: ajuste fiscal, produtividade com equidade, preocupação realmente de justiça”, disse Ana Paula Vescovi durante o Suno Invest 2026. O equilíbrio entre disciplina orçamentária e eficiência produtiva é visto como condição para reduzir prêmios de risco e normalizar o custo do capital.
No conjunto, a mensagem central aponta para a necessidade de calibrar políticas fiscal e monetária de forma coordenada. O objetivo é restabelecer a confiança dos agentes, diminuir a incerteza e criar condições para uma trajetória sustentável dos juros no Brasil.
